A Tempestade Perfeita do Biodiesel e a Fortaleza Estrutural da Raízen

O mercado americano de biocombustíveis está, neste exato momento, com a corda no pescoço. No meio de uma escalada brutal nos preços dos combustíveis puxada pelo conflito envolvendo EUA, Israel e Irã, a Agência de Proteção Ambiental americana (EPA) decidiu chutar o balde e estipular as metas de mistura de biocombustíveis mais agressivas já registradas. Para dar conta do recado, a indústria que esmaga soja para virar biodiesel vai ter que dar um salto de produção superior a 60% apenas este ano. A questão é que pouca gente no setor realmente acredita que a conta vai fechar, e um eventual fracasso tem tudo para jogar ainda mais gasolina no preço do diesel nas bombas.

O buraco é bem mais embaixo e esbarra forte no jogo político de Washington. A bancada ruralista e os agricultores há muito tempo vêm fazendo um lobby pesado por mandatos maiores, especialmente depois do tombo que levaram ano passado. Os preços da soja americana derreteram quando a China, em retaliação às tarifas impostas pelo governo Trump, virou as costas para os EUA e passou a comprar forte da América Latina. Como o agro é uma base eleitoral de peso para que Trump e os Republicanos consigam segurar sua já apertada maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, a canetada da EPA ganha contornos de sobrevivência política.

A realidade, porém, cobra seu preço. A EPA estima que será necessária uma oferta real de 6,07 bilhões de galões neste ano. O número é maior que as próprias cotas porque nem tudo que é produzido gera os chamados RINs, os créditos de conformidade do setor. Na prática, quem refina combustível nos EUA é obrigado a misturar bilhões de galões de biodiesel todo ano ou morrer na mão de quem tem esses créditos para vender. Se a indústria falhar em entregar o volume físico de combustível, as refinarias vão ter que queimar as gorduras de seus bancos de RINs, o que invariavelmente encarece a operação e repassa a conta direto para o consumidor final. Para se ter ideia da gravidade, Scott Irwin, especialista no assunto pela Universidade de Illinois, soltou a real: as partes obrigadas teriam que gerar cerca de 915 milhões de créditos por mês para bater a meta. Nas palavras dele, não estamos nem remotamente perto do que é necessário.

Enquanto o mercado americano bate cabeça com gargalos de produção e metas que parecem desconectadas da realidade física, o cenário no Brasil mostra um nível brutal de maturidade na ponta da oferta. É exatamente nessa assimetria global que entra o peso-pesado local: a Raízen.

Para quem acompanha apenas o sobe e desce frenético do ticker RAIZ4 na bolsa — que num fechamento recente girava na casa dos R$ 0,47, cravando uma alta de mais de 2%, com o papel oscilando entre R$ 0,46 e R$ 0,48 e movimentando quase R$ 5 milhões num único dia —, o tamanho real da máquina por trás da tela do home broker pode acabar passando batido. Fruto de uma joint venture peso-pesada entre a Cosan e a holandesa Shell, a companhia simplesmente lidera o mercado global de biocombustíveis e figura entre as maiores produtoras de etanol e cana-de-açúcar do planeta.

O grande diferencial competitivo da Raízen frente ao desespero logístico que vemos no Hemisfério Norte é a sua verticalização cirúrgica. A empresa opera no modelo “solo-ao-tanque” e “biomassa-à-eletricidade”. São 26 parques de bioenergia estrategicamente socados no Sudeste do Brasil, colados nos maiores centros de consumo e nas veias logísticas do país. Até 2020, o negócio rodava fatiado em duas grandes subsidiárias, mas hoje a atuação é em rede: passa por biocombustíveis, energia renovável, sucroalcooleiro, além de marketing e serviços.

Essa musculatura se traduz em números que impressionam. No ano fiscal encerrado em março de 2021, o faturamento bateu R$ 114,6 bilhões, cravando a empresa como uma das cinco maiores do Brasil em receita. É interessante notar a dinâmica de onde vem o dinheiro: 78% desse rio de capital pingou da área de marketing e serviços, enquanto a frente de renováveis segurou 13%. O açúcar em si ficou com os 9% restantes.

E o plano é de expansão agressiva. Com o IPO levantado em agosto de 2021, que injetou expressivos R$ 6,9 bilhões no caixa, o caminho ficou pavimentado. O prospecto da oferta já deixava claro que 80% dessa bolada seria queimada para levantar novas plantas e expandir a comercialização. O troco foi carimbado para injetar eficiência e melhorar a logística de armazenagem. Num momento em que os Estados Unidos sofrem para espremer soja suficiente e evitar um colapso nos preços do frete, gigantes bem azeitadas como a Raízen parecem estar jogando xadrez enquanto os concorrentes globais ainda tentam entender as regras das damas. O mercado global de energia limpa vai exigir capacidade de entrega real, e a infraestrutura já está montada por aqui.