Resultados de empresas de IA viram teste para Wall Street após correção das ações

A correção das ações de tecnologia aumenta a pressão por resultados que comprovem o retorno dos gastos recordes com centros de dados e chips de IA.

Depois de conduzir Wall Street a sucessivos recordes, o setor ligado à inteligência artificial entrou em uma fase de cobrança. A combinação de inflação mais alta, juros de longo prazo elevados, dívidas crescentes e concorrência asiática provocou uma correção forte nas ações de tecnologia. Agora, os balanços de grandes empresas serão usados para responder à pergunta que ganhou espaço entre investidores: o lucro consegue acompanhar o ritmo dos gastos com centros de dados e chips?

Na sexta-feira, o S&P 500 caiu 1,11% e o Nasdaq Composite recuou 1,88%, o pior desempenho diário de ambos desde julho. Empresas que fornecem a infraestrutura do ciclo de IA sofreram perdas ainda maiores. Marvell caiu 8,7%, Oracle recuou 8,8% e Dell perdeu 11,3%. Um índice de fabricantes de semicondutores cedeu 4,3% no dia e acumulou queda próxima de 12% no período recente.

A Nvidia perdeu 3,2% na sessão e ficou cerca de 7,5% abaixo do recorde alcançado no início do mês. O movimento não apaga a valorização do ano, mas mostra como preços elevados tornam o mercado sensível a qualquer mudança de expectativa. Quando as cotações já pressupõem crescimento excepcional, atrasos em projetos, aumento de custos ou vendas abaixo do previsto podem produzir reações desproporcionais.

O financiamento é uma das principais fontes de preocupação. A CoreWeave, especializada em alugar capacidade computacional para aplicações de IA, caiu 15,5% em uma única sessão após dúvidas sobre o rendimento de seus títulos. A companhia tem cerca de US$ 50 bilhões em dívidas e continua tomando recursos para ampliar a operação. Juros mais altos tornam esse plano mais caro e elevam a rentabilidade mínima que novos centros de dados precisam gerar.

A concorrência também entrou no cálculo. O anúncio de avanços da chinesa CXMT em chips de memória aumentou o receio de pressão sobre fabricantes americanos e sul-coreanos. Empresas de semicondutores foram algumas das maiores beneficiárias dos investimentos em IA, mas o mercado começa a avaliar se a demanda projetada compensa a expansão acelerada da oferta e a possibilidade de produtos alternativos.

O foco passa agora à temporada de resultados. Meta, Lam Research, Texas Instruments, SpaceX e Tesla estão entre as companhias com balanços previstos, ao lado de nomes de outros setores como Netflix, Procter & Gamble e GE Aerospace. A expectativa compilada pela LSEG IBES é de que as empresas do S&P 500 tenham aumentado os lucros do terceiro trimestre em mais de 30%, uma taxa alta que deixa pouco espaço para decepções.

A Meta terá atenção especial. Ela integra o grupo de cinco grandes operadoras de computação que, segundo estimativa do Goldman Sachs, deve elevar o investimento conjunto em capital para cerca de US$ 1,2 trilhão no próximo ano. O mercado quer evidências de que a rentabilidade dessas empresas cresce mais rapidamente do que seus gastos. Com o custo do dinheiro em alta, promessas de ganhos futuros já não bastam; cronogramas, margens e fluxo de caixa ganham peso.

As fabricantes de chips ilustram essa tensão. Mesmo após a correção, o índice Philadelphia Semiconductor ainda acumula alta de aproximadamente 57% no ano, contra cerca de 12% do S&P 500. As ações da Lam Research avançaram 54% em 2026 e as da Texas Instruments, 59%. Seus resultados poderão indicar se a procura por equipamentos e componentes continua forte o suficiente para justificar essas valorizações.

O quadro macroeconômico aumenta a pressão. Um dado de inflação acima do esperado reforçou as apostas em novo aumento de juros pelo Federal Reserve. Os contratos futuros indicavam que a maioria dos investidores ainda esperava uma segunda elevação apenas em dezembro, mas a possibilidade de aperto já aumenta o custo de capital. Ao mesmo tempo, setores que haviam ficado atrás da tecnologia, como saúde e produtos de consumo básico, registraram ganhos, sinalizando uma rotação parcial das carteiras.

A correção, portanto, não representa necessariamente o fim do ciclo de IA. O S&P 500 ainda está apenas cerca de 2% abaixo do recorde alcançado neste mês, e os investimentos em infraestrutura continuam sustentando lucros e atividade econômica. Mas a fase em que qualquer anúncio ligado à inteligência artificial bastava para elevar uma ação parece ter perdido força. Os próximos balanços separarão empresas com receitas, margens e disciplina financeira das que dependem principalmente de expectativas.