O paradoxo da proteção: entre a segurança familiar e a reavaliação de riscos

Embora falar sobre seguros ainda pareça um tabu para muita gente, a premissa básica é inegável: ninguém possui uma bola de cristal para prever o que acontecerá amanhã. Seja para garantir a estabilidade financeira de uma família após uma fatalidade ou para reconstruir um patrimônio após um desastre natural, o seguro é, em teoria, o instrumento definitivo de alívio financeiro. No entanto, o mercado segurador opera sob lógicas complexas que vão muito além da simples indenização, envolvendo desde a proteção em vida contra doenças graves até o aumento abrupto de custos para quem, ironicamente, precisa acionar o serviço.

A mecânica da proteção e o planejamento sucessório

No contexto de planejamento financeiro, o seguro de vida costuma ser a pedra angular. Ao contrário do que o nome sugere, ele não serve apenas para casos de morte. Caio Souza, responsável por Produtos de Seguros – Pessoa Física da XP, destaca que essa é provavelmente a ferramenta de proteção patrimonial mais importante disponível. O motivo é prático: mesmo que um indivíduo deixe uma herança robusta, o processo de inventário no Brasil pode ser moroso e burocrático. Nesse hiato, a família precisa de recursos imediatos para manter o padrão de vida.

O seguro preenche essa lacuna garantindo liquidez aos beneficiários ou dependentes, sem passar pelas travas legais de um inventário. Mais do que isso, as apólices modernas evoluíram para cobrir o próprio segurado em vida. Casos de invalidez (permanente ou temporária), doenças graves ou incapacitação entram no escopo. “Temos uma cultura de ligar o seguro de vida a uma simples indenização ao evento de morte, mas a amplitude do produto é muito maior”, observa Souza. Isso permite que a pessoa mantenha sua subsistência enquanto passa por um tratamento médico, por exemplo, protegendo a continuidade de seus projetos pessoais.

Quando o uso da apólice penaliza o segurado

Entretanto, a relação entre segurado e seguradora pode se tornar tensa quando o risco se materializa com frequência, uma realidade que transcende o seguro de vida e afeta drasticamente o setor de seguros residenciais e patrimoniais. Um exemplo claro dessa dinâmica vem ocorrendo na cidade de Minden, onde proprietários de imóveis enfrentam um aumento significativo em suas franquias após acionarem o seguro devido a tempestades.

Dennis Fett, um morador local conhecido carinhosamente como “Sr. Pavão” (Mr. Peacock), viveu na pele essa reviravolta contratual. Em um intervalo de menos de um ano, sua propriedade foi atingida por condições climáticas severas duas vezes: um tornado em junho e, anteriormente, uma tempestade de granizo em abril que destruiu seu telhado recém-trocado. “Tínhamos acabado de colocar um telhado novo cinco meses antes. Eu disse que não precisávamos de outro, mas o avaliador foi taxativo: ‘Você não tem escolha, o granizo era do tamanho de bolas de beisebol'”, relata Fett.

O problema surgiu na renovação. Após os dois sinistros, Fett recebeu uma notificação informando que sua franquia (o valor que ele precisa pagar do próprio bolso antes que o seguro cubra o restante) saltaria de US$ 1.000 para US$ 5.000. A justificativa da seguradora foi técnica e fria: ele agora era considerado um “risco ruim” (bad risk), ignorando o fato de que, nos dez anos anteriores às tempestades, ele nunca havia feito uma reclamação sequer.

O impacto financeiro e a crise regional

Para um professor aposentado como Dennis, esse aumento é devastador. “Cinco mil dólares é muito dinheiro. Minha aposentadoria é mínima, mal consigo me manter, e toda a minha renda disponível se foi por causa de um tornado e uma chuva de granizo”, desabafa. A situação se agrava pela falta de opções: segundo Fett, não há margem para negociação com a seguradora atual, e outras companhias se recusam a aceitá-lo devido ao histórico recente de sinistros. “Vou ter que vender muitas penas de pavão para juntar esse valor e colocar na poupança, torcendo para não ter outra tempestade”, ironiza ele, com preocupação real.

O caso de Fett não é isolado, refletindo um cenário mais amplo de reajustes que atinge até o setor público. O prefeito de Minden, Kevin Zimmerman, confirmou que os custos de seguro da própria cidade subiram em mais de oito mil dólares. O senador estadual Mark Costello já foi acionado e reconheceu que o problema afeta diversos residentes, mas alertou que mudanças legislativas ou regulatórias levam tempo — tempo que as vítimas das tempestades atuais não têm.

Entendendo o “Prêmio” e o “Sinistro”

Esses cenários distintos — a proteção vitalícia defendida por especialistas como Caio Souza e a crise de franquias em Minden — convergem para a necessidade de compreender como funcionam as engrenagens desse mercado. Na contratação, a seguradora emite a apólice detalhando os riscos cobertos e o capital segurado. O valor pago pelo cliente (geralmente mensal) é o “prêmio”. Quando o evento coberto acontece (seja morte, doença ou um telhado destruído), ocorre o “sinistro”.

É fundamental ler as entrelinhas. No seguro de vida, a cobertura básica é a morte, mas pode-se agregar proteções contra doenças graves que pagam indenização mediante simples diagnóstico. Já nos seguros de bens, a recorrência de sinistros pode alterar o perfil do segurado, encarecendo a manutenção do contrato. O produto se aplica a todas as fases da vida, desde a construção de patrimônio até a aposentadoria, mas exige do contratante uma atenção redobrada para que a ferramenta de proteção não se torne, em momentos críticos, uma fonte de nova ansiedade financeira.