A aposta dupla da Intel: volta ao básico nos PCs e escassez de servidores impulsionam retomada
A indústria de tecnologia passou o último ano apostando todas as fichas na inteligência artificial como o grande motor para reaquecer as vendas de computadores, na esperança de que a promessa de rodar aplicativos de IA localmente convencesse os consumidores a trocar seus equipamentos em massa. No entanto, a Intel parece ter adotado uma estratégia mais pragmática — e os investidores estão respondendo positivamente a essa mudança de tom, bem como à demanda explosiva por seus produtos de infraestrutura.
Foco no que o consumidor realmente quer
Durante a CES 2026 em Las Vegas, na semana passada, a gigante dos processadores surpreendeu ao não fazer da IA o único foco de sua apresentação. Para a sua nova linha de processadores, a Core Ultra Series 3, a Intel escolheu destacar atributos fundamentais: desempenho robusto e, principalmente, uma bateria que dura muito.
Fabricados com a aguardada tecnologia 18A, esses novos chips prometem uma autonomia superior a 27 horas. É um salto significativo em relação às gerações anteriores e, crucialmente, coloca a Intel à frente dos MacBooks da Apple — o Air costuma entregar cerca de 18 horas, enquanto o Pro chega a 24 horas. Para a empresa, que perdeu fatia de mercado para a AMD e para a própria Apple nos últimos anos, recuperar a confiança do consumidor com um chip potente que não drena a bateria é a maior aposta de sua estratégia de recuperação.
Pavan Davuluri, presidente de Windows e dispositivos da Microsoft, reforçou essa visão nos bastidores do evento, observando que o fundamental é entregar PCs mais rápidos, responsivos e com melhor custo-benefício. A IA ainda faz parte da conversa, claro, mas a empresa reconhece que, na hora de passar o cartão, o consumidor médio ainda prioriza velocidade e autonomia.
Essa abordagem “pé no chão” ressoa com especialistas de mercado. Alvin Nguyen, analista sênior da Forrester, aponta que a comunicação deve focar no que é familiar às pessoas. Segundo ele, a mensagem vencedora é oferecer um computador mais rápido e com melhor bateria, onde a IA entra como um bônus, e não como o único atrativo.
A retomada industrial com a tecnologia 18A
Este é um momento decisivo para a Intel. Jim Johnson, vice-presidente sênior do grupo de computação cliente, demonstrou confiança absoluta de que a produção em escala do processo 18A provará o valor da nova estratégia. Evitando promessas vazias, o executivo enfatizou a execução: a demanda está alta e as fábricas já estão operando a todo vapor com a nova tecnologia.
Euforia em Wall Street e capacidade esgotada
A reação do mercado financeiro a esses movimentos e ao cenário de infraestrutura de dados tem sido imediata. No fechamento do pregão desta quarta-feira (14), as ações da Intel (INTC) subiram 3,02%, encerrando cotadas a US$ 48,72. O volume de negociações foi intenso, atingindo 147 milhões de ações — cerca de 60% acima da média dos últimos três meses.
O otimismo não vem apenas dos laptops. O grande impulsionador das ações tem sido a narrativa em torno dos servidores de IA e da fundição de chips. A capacidade da Intel para CPUs de servidores já está praticamente esgotada para todo o ano de 2026. Essa escassez pode dar à empresa poder de precificação, permitindo aumentar as margens de lucro em um momento crítico.
Enquanto o S&P 500 e o Nasdaq Composite recuaram 0,51% e 1,00% respectivamente no mesmo dia, a Intel nadou contra a corrente. Concorrentes como AMD e Nvidia tiveram desempenhos mistos, com investidores ponderando entre as expectativas de crescimento impulsionadas pela IA e as restrições na cadeia de suprimentos.
Otimismo com ressalvas
Acumulando uma alta superior a 30% apenas neste início de ano, as ações da Intel refletem ventos favoráveis, incluindo a demanda por infraestrutura de IA e o incentivo à manufatura doméstica de semicondutores. No entanto, analistas alertam que o rali pode não continuar sem obstáculos.
Muito desse otimismo já pode estar precificado no valor atual das ações. O mercado financeiro é volátil e qualquer sinal de desaceleração econômica ou uma queda na demanda por infraestrutura de data centers poderia resultar em uma correção severa após essa corrida de alta. Por ora, entretanto, a combinação de chips de consumo eficientes e servidores esgotados parece ser exatamente o que a Intel precisava para voltar ao jogo.